Não existe o quase!

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Muito novo aprendi com minha mãe que o quase realmente não existe. E foi numa tarde de domingo, lavando as panelas em que ela havia feito o almoço. Na pressa de correr para a rua e jogar futebol, a presa de lavar era maior do que a vontade de limpar. Ao começar a secar as panelas para guardar, começou a rejeitar. “Esta aqui está suja, essa pode lavar de novo”, e assim por diante. Tentei argumentar, mas só tentei. Porque dela ouvi que não existe o quase limpo, quase honesto, quase sincero, quase franco, quase novo. O quase segundo ela, não existe. Ou está limpo, é honesto, sincero, franco ou novo, ou não é.

Também foi na beira da pia naquela tarde que ouvi dela que não esperasse ninguém nem nada perfeito. Porque todos e tudo, sempre seriam quase perfeitos, “e como o quase não existe” disse ela, “saiba que na sua vida sempre deverá conviver com os “quases” dos outros e os seus!”

 

“Veja esta panela. É muito boa para cozinhar, de bom tamanho, mas tem um pequeno defeito na tampa que deixa escapar ainda um pouco de calor. Este o “quase” dela para ser perfeita. Se uma simples panela tem seu quase porque as pessoas não devem ter? Simples! É que nós às vezes fazemos de conta que não vemos o quase dos outros, ou ele fica sempre oculto por um bom tempo, mas um dia, aparece.”

 

Eu recomecei a lavar as panelas quase limpas, enquanto minha velha dizia, “nós gostamos de ser perfeitos, e esquecemos de que também somos “quase”. Mas como gostamos de apontar os “quases” dos outros! É a velha mania de esconder o próprio rabo e pisar no alheio. Mais uma vez, está aí nosso quase”.

 

Sei que terminei de lavar as panelas e entre terminar o serviço de uma e iniciar em outra, esperava o veredito. Mas estranhamente não tive mais nenhuma devolvida, e me achei todo poderoso, perfeito. Foi quando veio a sentença final.

 

“Da próxima vez enxágue direito para tirar todo sabão. Ficará mais fácil de secar.”

 

Ou seja, minhas panelas sempre ficariam como as de todos que até hoje as tenham que lavar. Quase perfeitas!

 

À partir desta semana nossa coluna estará também no portal www.bbcnews.com.br, de Dourados no Centro Oeste de Mato Grosso do Sul. Sejam bem vindos.

 

Antonio Jorge Rettenmaier, Cronista, Escritor e Palestrante. Esta crônica está em mais de noventa jornais impressos e eletrônicos no Brasil e exterior. Contatos, Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

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